Kimbo Lagoa

VIDAS QUEBRADAS – XXVIII

O TEMPO RUGE...

– “Missão Xirikwata” - ANGOLA – DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIA - 3

- Crónica 3757– 29.07.2026

araujo179.jpg Estávamos em 1947, dois anos após o término da segunda Grande Guerra e também, do meu nascimento, uma inventação, supostamente a bordo do Vapor Niassa; Agostinho Neto tinha neste então 25 anos, tendo-se matriculado na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Aproveitando uma bolsa de estudos dos metodistas americanos, transferiu-se para a instituição congénere lisboeta. 

Enquanto universitário, é preso pela PIDE e, pela primeira vez, no ano de 1951 por andar a recolher assinaturas para a Conferência de Paz de Estocolmo. Tempos da chamada Guerra Fria, que em banho-maria cozinhavam informações e contra informações com espiões atropelando-se em Lisboa  

A neutralidade da ditadura de António Salazar e uso do país como ponto de partida para a América atraíram para Portugal os melhores espiões da época, que conviveram com outros que se passavam por agentes secretos ou vendiam informações falsas a qualquer lado como o famoso Ian Fleming, funcionário da Inteligência Naval Britânica e diretor do escritório ibérico do serviço de espionagem inglês.

araujo159.jpg Neste ambiente de novas alvissaras, e no decorrer de um comício do MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), a polícia de Salazar volta a prender Neto em 1955. Em abril desse ano de 1955 morre D. Pedro VIII, último rei do Congo (Extinto em 1914), sem coroa nem domínio. Nascido como Pedro Buafu, era oriundo da região de Palabala no Congo Belga (atual República Democrática do Congo). 

Ele estudou em sua juventude com batistas americanos e britânicos tendo sido apontado por um conselho de chefes como o novo Manikongo.  Em 1923 após a morte de Álvaro XV, assumiu converter-se ao catolicismo e abandonar a poligamia com suas oito esposas. Portugal também apostava na missionação seguindo as práticas dos países líderes estabelecendo M´Banza Congo (S. Salvador) como capital.

Tendo Portugal imposto um católico à sucessão do tal D. Pedro VIII, os protestantes reagem formando a União dos Povos do Norte de Angola - UPNA, liderada por Barros Necaca, da qual fazia parte Holden Roberto, seu sobrinho. Em dezembro de 1956 a pacatez de Luanda é surpreendida com o aparecimento de um manifesto denunciando a opressão colonialista surgindo de um agrupamento de vários núcleos políticos clandestinos e, que tomam forma e estrutura a partir desta data tais como o MIA (Movimento para a Independência de Angola), o MLNA (Movimento de Libertação Nacional de Angola) e o PLUA (Partido de Luta Unida dos Angolanos).

xiricuata5.jpg Em Lisboa, Salazar do M´Puto ironiza: “São poucos, mas mudam constantemente de nomes para parecerem muitos”. Em junho de 1957, Neto é libertado, por via da ação de solidariedade movida por Jean Paul Sartre, André Mauriac, Simone de Beauvoir, Diego Rivera, Louis Aragon entre outros intelectuais influentes na opinião pública internacional. A história do Manifesto de 1956 consta ter sido protagonizada por Viriato da Cruz que depois de alguns anos de militância político cultural, decide “entrar a valer” e não continuar a luta apenas pela ponta da caneta, como dizia. 

Em meados de 1955, Viriato da Cruz (VC) escreveu um estudo sobre “A industrialização de Angola e a situação da nova classe operária” que serviu de documento de trabalho para as duas reuniões preparatórias, anteriores da proclamação clandestina do Partido Comunista de Angola (PCA), a 12 de novembro de 1955. As discussões havidas entre os fundadores do partido (VC, Ilídio Machado, Mário António e António Jacinto) foram feitas em torno da “necessidade e possibilidades de fundação de um Partido progressista”, ao mesmo tempo, de classe e nacionalista, “combatente pela causa da libertação das massas trabalhadoras e do povo angolano”

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Nota: Vivências aleatórias no tempo, por T´Chingange, …

(Continua...)

O Soba T´Chingange

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