Kimbo Lagoa

BOOKTIQUE DO LIVRO . LXXX ::: ANGOLA - VIDAS QUEBRADAS - XVIII

Operação "Xirikwata" são um conjunto de episódios relativos à descolonização

- Um livro de leitura obrigatória de António Mateus - Jornalista 

- Crónica 3743 - 28.06.2026 – “Missão Xirikwata"

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Em Walvis Bay, o porto mais importante da Namíbia, a situação ficou dramática por via da chegada de 23 traineiras com um total de mais de dois mil refugiados e também de dois cargueiros apinhados de gente dita «angolana». O local de bivaque estava sobrelotado e sem condições sanitárias mínimas, e a requerer o apoio da comunidade internacional. Sabia-se pela rádio que em Luanda se verificava esta mesma situação de sobreloteamento.

Naquele então do ano de 1975, Gonçalves Ribeiro, o pai da “Ponte Luualix” fazia alarde ao mundo da periclitante situação em retirar todos os deslocados por via da descolonização. Ainda faltava ir buscar algumas pessoas a áreas aonde não havia qualquer segurança (…). Confirmo que assim era porque estando eu destacado como “adido” no Palácio do Governo da Cidade Alta da Luua, podendo vivificar o que por ali se passava e comentava.

Em meados de outubro, o terminal aéreo de Nova Lisboa (Huambo) encerrava, e Luanda passou a receber entre quinze e vinte aviões por dia. Conto isto sem me situar no tempo ou local, aleatoriamente, mas pouco importa porque tudo estava por igual: - descontrolado! Os meios aéreos para fazer chegar a Luanda os refugiados do Lobito, Benguela e Moçâmedes, sendo insuficientes, o Comando Naval arranjou meios marítimos para fazer chegar a Luanda os cerca de 250 mil cidadãos.

Aqueles cidadãos eram brancos (maioritariamente) mas, tendo também milhares de mestiços e negros; enfim! Seguiam todos aqueles que o desejassem! Na vinda ou ida dos refugiados de um para outro lado (como formigas quiçonde) mas e, principalmente para os lugares de embarque da Luua (aeroporto Craveiro Lopes ou de Belas), praticamente não havia triagem; o controlo era precário. Nunca pude entender esta falta de cuidado na logística das coisas pelo que julgo o ser propositado.

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No M´Puto, a oposição da esquerda dita «revolucionária» e sindicatos, reduziam os refugiados a “colonos ou fascistas” e, que por isso, mereciam o que lhes estava a acontecer. Era algo frustrante de se saber. No ar cheirava-se haver um ódio dum tamanho inaudito. Infelizmente só se vislumbrava uma pessoa da governação Tuga preocupado com a periclitante situação; era Gonçalves Ribeiro que de forma aflitiva pedia socorro aos restantes governantes de Lisboa e ao Mundo.

Em Angola, mais propriamente em Luanda, não havia tempo para decidir de quem estava ou não nas condições de perseguido, deslocado, refugiado ou o que quer que fosse. Não importava ser-se quem era e de onde vinha ou do porquê de estar ali. Era tudo ao monte e seja o que Deus quiser, aos magotes na fé de Deus com os naturais choros de adultos e crianças, ordens e contra ordens desencontradas ou nem tanto porque assim o parecia ser; ninguém acreditava em ninguém. 

Cães, gatos e outros animais de estimação foram largados ao descaso como heresia apócrifa! É confrangedor só de pensar em estas turbas de gente que às pressas colocaram umas peças de roupa, uns agasalhos, umas fotos de recordação e aí vão ao encontro dum desconhecido maior que o mundo. E, eu também fiz parte deste filme com os cenários patéticos entre despedidas de gente serviçal ou amiga, um vizinho que por ali iam ficando. Toma as chaves do meu carro… Adeus!

Era um Adeus dado aos trambolhões às coisas, ao motor da GMC a fazer de gerador, dos gansos guardadores mais o pavão e as galinhas capotas debaixo do DKV. Ele, Deus, era só uma questão de fé interior, a vontade de querer e acreditar, mas Ele, não surgiu a muitos; a lei da vida e da morte era um traço disforme, desfeito em cotão a confirmar que só somos enquanto o somos - uma ilusão!

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Nota: Com alguns enxertos do livro ANGOLA, VIDAS QUEBRADAS e vivências de  

T´Chingange, o Soba

(Continua...)

O Soba T´Chingange

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