Kimbo Lagoa

BOOKTIQUE DO LIVRO . LXXXI ::: ANGOLA - VIDAS QUEBRADAS - XIX

- Um livro de leitura obrigatória de António Mateus - Jornalista 

- Crónica 3743 - 30.06.2026 “Missão Xirikwata”

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Cullinan, uma localidade situada a cerca de 30 km de Pretória na África do Sul, era um outro «Refuge Camp» muito igual a um qualquer campo prisional, com a satisfação de ali haver camas, chuveiros e alimentação tipo rações de combate. Dos mais de 10 mil refugiados que passaram por Cullinan só 1200 tiveram permissão de ficar na África do Sul, os restantes foram recambiados para Portugal Continental

Muitos dos refugiados viram-se na obrigação de mostrar falsas declarações de habilitação a fim de poderem ser selecionados para ficar em África, mas, sucede que os testes específicos de verificação lhes foram cruéis denunciando a fraudulenta vontade de sobrevivência de ficar por aquelas paragens.

Não tenho devaneios em julgar que estes arquivos de vida em fuga em tempos estranhos e, em terra alheia vão ficar mortos como coisas do passado!… Pois já no distante ano de 1975 e sequentes da mesma abrilada, pude ver no M´Puto os latifúndios da lezíria e savana alentejana acabarem sendo destelhados tornando-se montes abandonados. Os proprietários fugiram para o Brasil, Argentina e outras Américas.

E aqui, ao invés das angústias dos fujões de África de setenta e cinco, fizeram festas revolucionárias comendo o gado, roubaram portas e janelas e, enquanto deu foram levantando o punho revolucionário da esquerda e a caçadeira na direita. Os donos desses pedaços de terra chamados montes, também não tiveram alternativa e formavam fila a caminho do Brasil. Entretanto, Vasco Gonçalves lançava cravos à multidão.

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E, nesta altura a turba de povo Tuga, era a mesma que nos cuspia no rosto porque nós, os retornados, éramos uns exploradores de negros! Comíamos seus miolos ao matabicho e das sobras ainda se fazia panados com pezinhos de coentrada como se borregos o fossem. É triste falar deste modo tão carregado de sátira, mas foi o que se passou com a maioria de «retornados de África do 75», havendo raras exceções Alguns envergonhados, dizem agora (ano de 2026) que não o era assim! Clara que no meio de tantos, sempre havia gente boa, diga-se em verdade! 

E, isto tem de ser dito de forma crua para que os angolanos que por lá ficaram na Luua sofrendo às mãos do MPLA, entendam que nossa sobrevivência também o foi, penosa no M´puto! E, tudo isto, porque depois de termos sido dados como ferro velho ainda nos retiram raspas de ranho ressequido fora da coisa dada - da nossa N´Gola. 

Tudo em um tempo que da ilha da Mazenga da Luua, se podia ver lá longe, as balas tracejantes riscando o dia e a noite com colunas de fumo negro e branco a excitar o medo duns e os corações de outros. Do lado de cá da baía, ainda sonhávamos com um “havemos de voltar”, mas imprevisibilidade a lei e a ordem eram uma fantasia escura, a justiça uma anedota trágica de porrada só átoa e nosso bilhete de avião tipo «guia de marcha» não tinha volta…

Podíamos sentir nossos amigos, vizinhos acampados no porto da Luua para fazerem a estiva de seu pecúlio, suas imbambas; as Kalashnikoves continuavam a cantar por todo o lado traduzindo os dias em centenas de mortos, gente presa, fuzilamentos sumários. O MPLA agrupava seus pioneiros para fazer maka aqui e ali. O Poder Popular agrupava seus militantes como carne para canhão sem o saber, divertindo-se também como se tratasse de um festival de pirotecnia.

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Nota: Com alguns enxertos do livro ANGOLA, VIDAS QUEBRADAS e vivências de  

T´Chingange, o Soba

(Continua...)

O Soba T´Chingange

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