- Um livro de leitura obrigatória de António Mateus - Jornalista
- Crónica 3749 - 12.07.2026 – “Missão Xirikwata”

E, junto ao Okavango River, pude por várias vezes e em diferentes tempos além de rever águas passadas, entreter-me também a observar as mulheres envoltas em panos garridos, capulanas com fotos de Mobutu Sesse Seko, Tshombé e de San Nujoma, lavando e pondo a secar nas pedras ou capim das margens deste grande rio fronteiriço.
À margem dos escritos do livro “Vidas Quebradas” irei alongar-me com falas da minha lavra e extraídas da «Torre do Zombo», lugar aonde guardo todas as «malambas». E, assim, vendo os candengues a brincar, as vacas a pastar e homens pescando em canoas, podia também ver ao longe, resquícios da guerra de tundamunjila.
Via sim! Casas de adobe destelhadas, sem portas ou janelas, grafitis de Kwacha e catanas cruzadas já desbotados no tempo e bandeiras do Galo Negro, aqui e além, esfiapadas. Assim, entre mugidos de nemas (gado crioulo/gentio), gritos de crianças e chilreio de pássaros, podia refazer em uma tela de longos horizontes idealizada pelas muitas lembranças atafulhadas atoa entre veículos enferrujados com cambotas a servir de poleiro a galináceos … Em Luanda, já em maio de 1975, a população branca só esperava meios de evacuação porque nada mais lhes restava. Já havia um número elevado de locais com gente deslocada, que desesperadamente tomavam o rumo do sul. As balas tracejantes continuavam a riscar os céus. Era o 1º de Maio. Quem andou na guerra, não se recorda de ter visto assim tanto fogo nos céus de Luanda - só o podia ser para provocar o medo generalizado.

Os brancos tinham percebido por fim que estavam por sua conta e risco. Não havia a quem recorrer e, nada de tribunais. Enquanto isso, no M´Puto, o PCP promove assembleias de bairro em Lisboa juntando a Câmara Municipal, as juntas de freguesias, as comissões de moradores, as comissões de trabalhadores, cooperativas, coletividades e grupos de cristãos para o socialismo e o tal de PREC sempre em ação humana de «ajudar o próximo»; uma falácia habitual com matriz comunista…
O espírito é unitário, apelo muito usado e, reúne "todas as forças verdadeiramente interessadas no avanço do processo revolucionário." O Primeiro-Ministro Vasco desloca-se até ao Sabugal para falar à população e lançar cravos vermelhos, como é habitual. Ainda no M´puto, a seguir ao 11 de março, Mário Murteira tomou conta do Banco de Portugal, supostamente orientando o processo da nacionalização da banca, p´ra comandar toda a economia.
Mário Murteira colado ao PCP desempenharia um lugar proeminente na Revolução. Mário Soares sabia e tinha toda a razão quando disse a Silva Lopes ministro das Finanças quando indigita Murteira: "Acabou de meter no Banco de Portugal o Partido Comunista". As coisas corriam ao descaso e Silva Lopes respondeu-lhe: "Você está a brincar”! Em verdade, todos estavam! …

Voltando à Luua, entre 29 de abril e 2 de maio os luandenses viveram debaixo de fogo cerrado e de grande intensidade, armas ligeiras, armas pesadas, lança foguetes e morteiros com ações de fogo posto e pilhagem. Houve muitas prisões feitas de forma indiscriminada! Havia refugiados no Liceu Feminino D. Guiomar de Lencastre com sessenta desalojados; também na Faculdade de Ciências na Avenida Marginal com cento e cinquenta e mais outros trezentos na sede da juventude da UNITA na rua Luís de Camões.
Esta gente tinha sido expulsa dos Bairros da Vila Alice, Cuca, Vidrul, Terra Nova, Cazenga, Marçal, Bairro Marcelo Caetano, Lixeira e Boavista. Gente do povo, brancos, mestiços e negros a carecer de meios de subsistência, sem conta bancária grande ou pequena; só a roupa do corpo. Silva Cardoso o Alto-Comissário depois do Acordo de Alvor, era constantemente atacado pelo MPLA em comunicados via rádio e panfletos por não ser suficientemente revolucionário – quer-se-dizer, a seu favor. Afirmavam que já não servia à revolução angolana.
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Nota: Com pequenos excertos do livro ANGOLA, VIDAS QUEBRADAS e vivências aleatórias de T´Chingange - o Soba
(Continua...)
O Soba T´Chingange