- “Missão Xirikwata” - ANGOLA – DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIA - 24
- Crónica 3778 - 25.10.2026
As estórias do T´Chingange - caricatura de Costa Araújo - (já falecido:10.08.1947 a 10.08.2019)
No M´Puto andava-se muito a pé pois que a gasolina estava racionada devido ao embargo de petróleo pelos países árabes; também em retaliação ao apoio de Portugal aos Estados Unidos, aliados de Israel na guerra do Yom Kippur. Os jornais esgotavam-se rapidamente e, nos cafés e nas esplanadas falava-se do derrube iminente do regime; comentava-se o livro do general Spínola “Portugal e o Futuro”, esse muito vaidoso militar tuga, de botas de cano alto, luvas, pingalim e até monóculo.
Este livro que foi lançado a 22 de fevereiro de 1974, esgotou rapidamente. O pessoal, militares e povo em geral, andava desesperado com a longa ditadura salazarenta – era o que se dizia à boca pequena pois que a polícia política não era pera doce no trato. Foi quando se inventaram siglas políticas para todos os gostos: MIRN, LUAR, MRPP, MDP-CDE e eteceteras. Fizeram-se saneamentos nas empresas aos milhares.
Foram os anos das fugas para o Brasil e de vendas ao desbarato das vivendas do Estoril e Restelo. Meu cunhado, um industrial bem conhecido na praça de Luanda em Angola, de nome Paulino Branco, nas conversas que tinha comigo, ia dizendo que me preparasse para o pior, pois que não viria aí coisa boa - que nosso destino seria fugir de Angola.
Pintura de Costa Araújo
Eu, não lhe dei ouvidos, achava serem conversas de caserna lá do Grafanil, de seus amigos do Riachos de Santarém, terra natal do tal Ché português de nome Otelo Saraiva de Carvalho, boatos assim como da treta, só que com teorias de conspiração bem esquerdoidas. Eu, era entre muitos t´chinderes (brancos) luandenses, um zero à esquerda em questão de política. Era mesmo! Um tipo que só pensava no próximo filme que ia dar no cine Império, no clube da Maianga, no Restauração, Tivoli, Ferrovia e, por aí vai – e, claro a praia da ilha…
Nesta cultura do cinema, o tempo veio a confirmar tudo o que Branco falava! Fiquei longo tempo em uma casa dele - grande e bem apetrechada situada na Samba, um bairro de Luanda e, aonde permaneci até ser colocado na Câmara Municipal de Robert Williams (Caála) no Huambo. Ele, o meu cunhado, Branco de nome e de cor de pele foi para o M´Puto com toda a família. Sua casa e carro grandes ficaram ao meu cuidado.
Seu carro, um monstro bonito com asas verdes de morcego Ford Galáxia só era usado por mim para ir à Praia da Corimba, lugar bem próximo lá da LUUA, pois o bicho, só gastava 18 litros aos cem quilómetros – um horror! Era só carregar no pedal e sentir aquele impulso e o barulho sugador do motor papando meus escassos quitares (dinheiro em quimbundo de Angola) ganhos no SPCFT (Serviços de Portos, Caminhos de Ferro e Transportes) – Talqualmente!
Ele, o Branco que contactava de perto com os militares oficiais, sargentos e afins, oriundos do Riacho do Alentejo – a terra do tal Otelo que foi a Cuba falar com Fidel. Isso mesmo! A pedir cubanos para acudir ao MPLA porque estavam nas lonas – quer-se-dizer: sem homens e sem comando eficaz para assumirem a independência. E eu, o Costa, feito burro inocentississimo, ali andava trambolhando cavandelas a gosto e contragosto nas peripécias do dia-a-dia - com makas e boatos por tudo que era canto – Cuncamano! Com medufa! Pelos vistos, o branco Branco, meu cunhado, estava bem informado. E, no tempo certo deu o fora para o M´Puto entregando-me as chaves do seu património com mais um Galáxia Xis-pê-tê-hó…
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Nota1: Vivências aleatórias no tempo, por T´Chingange - Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha. Afinal, não o era e, juro que não o sabia…
(Continua...)
O Soba T´Chingange